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Instituto Hermes Pardini - 48 anos

Desde jovem, recebi influência de meu pai Armando Pardini, que trabalhava com produtos farmacêuticos e era apaixonado por endocrinologia. Embora não sendo médico, adorava dosagens hormonais. Freqüentava o laboratório de um grande amigo para conhecer técnicas laboratoriais. Montou um pequeno laboratório em nossa casa, cuja finalidade era isolar alguns hormônios para pesquisas que ele reproduzia através de leituras.

A casa de minha família, onde eu era filho único, era povoada de livros de endocrinologia. Meu pai, sendo amigo do Prof. Thales Martins, grande pesquisador, conseguiu-me um estágio com o Professor Fernando Ubatuba que trabalhava na FIOCRUZ e no laboratório na Santa Casa do Rio de Janeiro à Rua Santa Luzia, quando eu já me formava em medicina. Vocês podem imaginar a alegria de um pai apaixonado por medicina, formar um filho médico,  ainda mais se aperfeiçoando em laboratório de Endocrinologia.

Fui para o Rio de Janeiro sozinho, estagiar com o Prof. Ubatuba, ficando hospedado no Instituto Osvaldo Cruz, em Manguinhos. A esta altura eu já estava noivo de minha esposa, Carmen C. Pardini, e vinha a Belo Horizonte quinzenalmente para visitá-la, sempre com o apoio de meus pais, encantados com meu estágio.

Minha vida era extremamente simples, ou seja, meu pai tinha salário reduzido e minha mãe nunca teve vaidades e era muito econômica,  desta forma a minha subsistência no Rio de Janeiro foi de baixo custo, tendo o suficiente apenas para o almoço em restaurantes populares e ônibus para  o Centro e retorno.  Em Manguinhos não pagava hospedagem, café e lanche, graças ao Prof. Amilcar Viana Martins, seu diretor na época. Como minha vida era só estudar e praticar laboratório especializado em Endocrinologia,  eu evitava qualquer despesa que pudesse sacrificar meu pai.

Terminando o estágio, voltei para Belo Horizonte cheio de esperança e determinação. Meu pai alugou uma pequena sala no Edifício Borges da Costa aonde implantei algumas dosagens hormonais. No dia 10/agosto/1959 recebi meu primeiro exame no laboratório, foi emocionado e cheio de alegria que curti aquela solicitação.

Lembro por exemplo, a dosagem de Gonadotrofinas Hipofisárias que eram feitas em camundongos fêmeas de 21 dias e, para isto, tivemos de montar um biotério, que era controlado pela, então minha noiva, Carmem e uma irmã. Era uma dosagem trabalhosíssima, que hoje não se usa mais. Não é preciso dizer da vontade inabalável de dar qualidade ao pequeno laboratório de uma sala e saleta de espera, para executar algumas poucas dosagens de endocrinologia.

 Não havia dinheiro, mas o pouco que recebia da ajuda inicial de meu pai, foi logo sendo somado com o pequeno rendimento que, em alguns meses, o laboratório começou a gerar e não precisei mais da ajuda paterna após o primeiro ano.

A vida regrada que meu pai e minha mãe tiveram, permitiu que eles pudessem comprar um apartamento para mim  a duras penas e, com isso, não precisei de pagar aluguel após o meu casamento em 05/março/60.

Podem imaginar a luta de um jovem de 25 anos de idade, recém-casado, cuja esposa, que logo engravidou, ajudava de todas as formas. Tinha  dificuldades para divulgar meu trabalho, pois eu era um ilustre desconhecido. Para minha surpresa, os grandes amigos médicos que freqüentavam a casa de meu pai, não foram os que  me prestigiaram.

O meu esforço era imenso, começava a trabalhar às 6:30hs e terminava às 21:30hs diariamente. Apenas tínhamos um simples café com pão em casa e um almoço às 14:00hs em restaurantes simples. Freqüentei febrilmente a Associação Médica de Minas Gerais (AMMG) em seus departamentos de Endocrinologia e Patologia Clínica, fazendo palestras. Também participei de quase todos os congressos daquelas áreas, sempre divulgando as novidades e aplicações clínicas das dosagens. Com isto, consegui o apoio de alguns especialistas,  o que foi definitivo para a minha progressão inicial.

No ano de 1960, redobramos nosso sacrifício de horário, já tínhamos uma recepcionista, duas auxiliares e Carmem com filha recém-nascida. No início do ano de 1961, fiz o curso de aplicações clínicas em Medicina Nuclear na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi um curso muito penoso, porque era em tempo integral, ou seja, de 8:00hs às 12:00hs e de 14:00hs às 17:30hs portanto, precisava estar fora do laboratório e sendo obrigado a estudar para esta nova especialidade durante as madrugadas, sábados, domingos e feriados. A minha esposa e as auxiliares me ajudavam com toda dedicação e eu ficava no laboratório nos horários de 06:30hs às 08:00hs, no horário de almoço e após as 17:30hs. Eu  não sei como consegui me desincumbir  desta sobrecarga. Terminado o curso do qual muito me orgulho, fizemos as provas e entre todos aqueles colegas que estudavam Aplicações da Medicina Nuclear, consegui obter a nota mais alta.

Nesta altura, o laboratório começava a ficar um pouco mais conhecido, em virtude da minha forte atuação científica e da qualidade de nossos resultados. Nesta época conheci um carioca genial que, infelizmente, não está mais entre nós, chamado Sérgio Almeida. Ele construiu para o meu laboratório, a preço acessível e oferecendo razoável prazo para pagamento, um aparelho para cintilografia da tireóide, outro para captação do I-131 e outro para cintilografia líquida (poço) para realização do PBI-131. Para nossa sorte, lançamos estes  exames de tireóide em 1961, como o único laboratório da época a trabalhar com conhecimento clínico de endocrinologia.
Eu executava pessoalmente estes exames, com pleno conhecimento da fisiopatologia da tireóide e diversas influências que alteravam os testes, fui por assim dizer, praticamente, pioneiro em Belo Horizonte. O setor de Medicina Nuclear aplicada a tireóide se desenvolveu e já tínhamos os exames completos de tireóide para a época, incluindo, o Iodo Protéico 127, e naquela época, o ainda utilizado, Metabolismo Basal.

Desde meados de 1960  já podia dispensar a ajuda financeira de meu pai, que estava muito orgulhoso de mim, pois eu estava superando as expectativas dele que era a imagem da felicidade. Também a minha mãe Lavínia, participava da minha jornada, sobretudo porque foi ela, que numa vida humilde e despretensiosa, sempre se desenvolveu espiritualmente, estudando e participando das reuniões de TEOSOFIA, pouco valorizando às coisas materiais.
E a grande lição de meus pais foram de jamais abrir mão da honra, da responsabilidade profissional, e do senso de justiça.

Com esta filosofia, fomos nos desenvolvendo. No segundo semestre de 1960, fui convidado pelo Professor Caio Benjamim Dias, para ser seu colaborador no setor de Endocrinologia e Laboratório Especializado na Faculdade de Medicina da UFMG, aonde permaneci por 11 anos dando aulas, participando dos ambulatórios e do laboratório de endocrinologia na primeira Clínica Médica em tempo parcial, 4horas/dia. Consegui harmonizar nestes onze anos, o laboratório com a atividade docente também com muito sacrifício, mas foi um grande aprendizado. Preparava aulas sempre muito atualizadas, pois a cada ano, a evolução de minha especialidade era muito rápida. Procurava me atualizar nas madrugadas e nos fins de semana, através dos artigos das principais revistas especializadas e dos livros especializados. Este estudo foi de grande importância para as minhas aulas e palestras na Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), para minhas  participações em Congressos Brasileiros e nas Jornadas Médicas no Interior de Minas.

Meu primeiro revés foi em 1962, quando perdi todas as choradas economias iniciais, tudo perdido em uma firma de letras de câmbio, foi uma lição.

Em meados de 1969, sem o meu pai que falecera em 1965 e aproveitou pouco minha evolução profissional, pois morreu novo, aos 55 anos, vítima do cigarro, conseguindo manter sempre sua esperança e alegria de viver, apesar de apresentar  durante três anos cianose e intensa falta de ar. Daí o meu ódio ao cigarro. A morte de meu pai me causou profundo abalo porque ele era o meu grande incentivador, e naquele momento de minha carreira, não pude devolver como gostaria, a atenção e o afeto que ele nutria por mim. De onde ele estiver, ele sabe do agradecimento imenso que tenho pelo enorme apoio que me deu, e jamais será esquecido e me faz muita falta. Em 1986 faleceu minha mãe e o mesmo posso dizer dela, além do imenso orgulho de tê-los como pais. 

Em 1965 tive meu segundo prejuízo, novamente numa firma de investimentos de um amigo de meu pai que, na hora do "vamos ver" tirou o time. Todas as economias saíram pelo ralo. Nova e sentida lição.

Nesta altura já haviam nascido meus três filhos. A primeira, Áurea Maria, Dentista, casada com o Oftalmologista de sucesso Rui Marinho, a segunda Regina, Patologista Clínica com mestrado e Chefe do setor de Imunologia do Laboratório, casada com Orlando renomado Economista e o terceiro Victor, Doutor em Endocrinologia, especialização em Genética Humana e Chefe deste setor em nosso Laboratório, casado com Anna Paula, Advogada. Cada filho me deu um casal de netos. É impossível imaginar quanto eu amo e desejo sucesso aos meus filhos, cônjuges  e netos.

Já no ano de 1969, o laboratório já possuía diversas salas próprias no mesmo endereço no qual iniciei e contava com profissionais de todas as sub-especialidades da patologia clínica, para sorte minha, muito competentes.

A partir de 1971, solicitei demissão da UFMG  já com o cargo de Professor Assistente, para poder dar toda dedicação que meu laboratório exigia.

Não mais com a responsabilidade do magistério, pude me dedicar de corpo e alma ao laboratório, especialmente na formação das equipes, motivando-as, aprendendo a administrar e dando um forte caráter científico e tecnológico a cada sub-especialidade.

E foi neste ano de 1971, que se delinearam os convênios com áreas de saúde das mais diversas empresas e com os recém-chegados planos de saúde.

Comecei em 1975, com os olhos no futuro a construção da primeira filial da Rua Aimorés, 33. Era um ousado projeto de uma grande construção para época, que consumiu muito tempo e muito desgaste em quem não tinha a menor experiência em construções. Foi tudo muito difícil, não sabia como controlar obras e a disposição interna de todos os setores foi corrigida por diversas vezes, com ajuda do arquiteto Maurício de Assis Lopes, que foi o meu "anjo da guarda" até terminarmos o primeiro grande prédio, com grandes áreas para o conforto do cliente, grande recepção, área especial para provas funcionais com instalações completas, área independente de coletas pediátricas, cabines especiais de coleta de sangue, enfermagem própria para cada setor e assistência médica, cozinha para lanche de clientes e funcionários, em tudo imperava uma bonita decoração. Os meus concorrentes achavam que aquilo era um "elefante branco", mas eu tinha plena confiança no meu trabalho e  no da minha equipe.

Em 1978, apesar de todas as dificuldades, inauguramos nossa sede principal que é a nossa matriz com outros prédios construídos posteriormente. A grande verdade é que os clínicos de Belo Horizonte nos deram todo o apoio, pela alta sensibilidade que tiveram à nossa qualidade, coadjuvados, pelos clientes que também optaram por nós. Clientes estes que sentem "ao vivo", a maneira como são tratados no laboratório.

Com o mesmo espírito de determinação, formação de equipes que se integraram ao sistema com todo comprometimento, fui ampliando as áreas técnicas, agregando novas especialidades.

Estamos hoje, com numerosos funcionários, um grande serviço de apoio que atende todo o Brasil e executamos um grande número de exames nas diversas especialidades

Nosso agradecimento especial aos nossos dedicados funcionários, que se juntaram a nós como uma dádiva dos céus. Todos contribuiram, cada um com seu interesse, boa vontade e intensa atuação na sua área na construção de nossos sonhos. Todos colaboradores são muito importantes para mim e merecem meu especial agradecimento e meus votos de muitas felicidades em nossa jornada.

Há poucos anos atrás achei nos guardados de minha mãe, uma mensagem para mim, no final de uma carta para ela, enviada quando ele era viajante vendedor de produtos farmacêuticos em São Paulo, no dia em em que completava um ano de idade.


"Hermes, meu filho

Quando fores maior e souberes ler, lerás estas linhas que foram escritas de tão distante, de seu pai que te ama tanto e que se sente forte num trabalho árduo, quando se lembra de que deve fazer de você um homem, um homem de bem.

Fazes um ano hoje e papai te beija muito.

Armando"

 

O mais importante é que nossas equipes seguem conosco persistindo em atitudes positivas, tornando os nossos dias mais felizes e plenos de luz e paz.


HERMES PARDINI